“Falta de oportunidades em Moçambique está na origem da vulnerabilidade de emigrantes na África do Sul”, alerta Elísio Macamo

O sociólogo Elísio Macamo defende que a violência contra moçambicanos na África do Sul não deve ser interpretada apenas como xenofobia, mas sim como resultado de problemas estruturais mais profundos ligados à falta de oportunidades em Moçambique.

Em entrevista, o académico sublinha que muitos dos cidadãos que enfrentam situações de vulnerabilidade além-fronteiras são os mesmos que já vivem em condições precárias dentro do próprio país, devido à escassez de alternativas económicas e sociais.

Macamo descreve o fenómeno como uma “hostilidade horizontal entre grupos pobres”, em que cidadãos sul-africanos marginalizados acabam por direcionar frustrações sociais contra estrangeiros que partilham o mesmo espaço de vulnerabilidade.

Segundo o sociólogo, estes ataques não devem ser vistos isoladamente, mas sim como expressão de falhas nos mecanismos de representação e resposta às necessidades dos cidadãos dentro do sistema político sul-africano.

O académico destaca ainda que a criminalidade e a exclusão social naquele país contribuem para a criação de um ambiente onde estrangeiros se tornam alvos mais visíveis e vulneráveis.

Para Macamo, a questão central não está apenas na resposta diplomática de Moçambique, mas na necessidade de o país criar condições internas que reduzam a dependência da migração como única alternativa de sobrevivência.

O sociólogo questiona a eficácia de respostas políticas mais agressivas, defendendo que o problema não se resolve apenas através de tensão diplomática, mas sim com políticas internas de desenvolvimento e inclusão.

Macamo observa que muitos migrantes moçambicanos que entram na África do Sul de forma irregular acabam por enfrentar maiores riscos, ao contrário daqueles que possuem integração laboral formal.

O académico defende ainda que Moçambique precisa de melhorar a capacidade institucional para aprender com experiências anteriores e reforçar a protecção dos seus cidadãos no exterior.

Na sua análise, fenómenos de violência semelhantes podem surgir em diferentes contextos da região, caso não sejam resolvidas as causas estruturais ligadas à pobreza e exclusão social.

Para o sociólogo, o foco principal deve estar no fortalecimento das instituições democráticas e na criação de canais eficazes de participação e resolução de conflitos sociais.

Macamo conclui que a prevenção da violência depende da capacidade dos Estados em transformar tensões sociais em debates políticos, antes que estas evoluam para situações de conflito e agressão.